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| Uma Faca Egípcia... |
Uma fascinante viagem ao tempo das primitivas lâminas
_____________________________________________________Laércio Gazinhato

Nunca imaginei ter em mãos uma faca de
bronze e com ela aprender ao vivo... Entretanto, a exposição
egípcia ocorrida de outubro a dezembro de 2001 no MASP-Museu de
Arte de São Paulo propiciou-me isto e, o que é melhor e mais
importante, também poder repartir informações inéditas com
aqueles que apreciam lâminas. Segundo meu conhecimento, este é o
primeiro artigo do mundo específico sobre uma
lâmina de bronze.
Na mencionada exposição, apreciando as 94 peças pertencentes a coleção do Museu do Louvre de Paris, e mais de 4 dezenas de outras de colecionadores brasileiros e do acervo do próprio MASP, tive contato com egiptólogos (que matéria tão fascinante!) e, como num passe de mágica, ela - uma faca egípcia de bronze - surgiu.
Inicialmente, é muito importante registrar que: 1) durante 2000 anos a civilização egípcia foi a mais avançada do mundo e 2) a cultura do Antigo Egito foi a única que utilizou os 4 (quatro) materiais pré-históricos para confecção de lâminas, começando pelas de pedra (no Período Pré-dinástico/ Período Neolitico, iniciando-se por volta de 4500 aC), passando pelas de obsidiana, ou vidro vulcânico (ainda no Pré-dinástico, entre 4500 e 3000 aC), as de bronze (início do Período Dinástico, entre 3000-1200 aC) e terminando nas de ferro (a partir de 1200 aC). Assim, as lâminas do Egito famoso, aquele dos faraós e deuses, foram, por excelência, as de bronze.
É curioso notar
que os sacerdotes do Antigo Egito que iniciavam o processo de
mumificação com a retirada dos orgãos do morto, o faziam
utilizando unicamente facas de obsidiana, ou vidro vulcânico,
mesmo após o advento das de bronze. 
Uma corrente de egiptólogos afirma que isto era para não contaminar o cadáver, tornando-o impuro perante os deuses quando renascesse, uma vez que o bronze não era natural, sendo uma liga de cobre e estanho (10 a 25%). Também na vida doméstica e rural, os antigos egípcios continuaram a utilizar facas com lâminas de vidro (parte de produção própria e parte trazida de lugares distantes que tinham vulcões) até, pelo menos, a Idade do Ferro, o que é comprovado pela quantidade delas encontradas em sítios arqueológicos de diversos períodos.
Acima,
faca com lâmina de pedra;
abaixo, lâmina de obsidiana,
ou vidro vulcânico,.com uma pele de animal a modo
de empunhadura.
O PASSADO NAS MÃOS...
Da maneira como se apresenta hoje, essa faca de bronze tem a lâmina com o comprimento de 6 ¾", ou 172 mm, largura máxima de 42 mm e espessura de 4,3 mm. O que restou de sua empunhadura tem o comprimento de 94 mm (perfazendo, então, uma peça com o comprimento total de 266 mm) e faz entrever que sua secção, nessa porção restante, fosse circular, com o diâmetro próximo a 20 mm.
A lâmina lembra, em suas linhas gerais, uma lança,
tendo desbaste reto, chato ("flat ground"), e é afiada
na área do fio e em cerca de metade do dorso. Embora coberta por
densa pátina que escure a lâmina, sua porção central, em
ambas as faces, mostra claras marcas circulares de um martelo
pequeno, demonstrando que foi forjada, e percebe-se que isto
também foi deixado como uma espécie de "acabamento
artisticamente martelado", como ocorre em diversas peças de
bronze de outras culturas antigas.
Detalhe
do que restou da porção de empunhadura da
faca egípcia de bronze. No "insert", note o belo
contraste
entre o marfim e o esmalte turquesa.
Na área visível do "espigão" (a maior parte de uma de suas faces) também percebe-se que ele foi forjado de modo a ter uma canelura central, certamente para reter algum tipo de adesivo (provavelmente alguma resina vegetal ou animal), do qual ainda existem vestígios de cor cinza-claro.
O que restou da empunhadura mostra uma peça única de madeira - já muito carcomida, rachada e ressecada, que perdeu cerca de 35% de uma face e toda a sua parte inferior - com os restos de um pequeno "insert" (certamente cilíndrico, como a empunhadura) composto de marfim mesclado com pequenas áreas retangulares rebaixadas sobre as quais se aplicou o clássico esmalte turquesa dos egípcios. Segundo especialistas, provavelmente a madeira da empunhadura é de tamareira e o esmalte turquesa era obtido moendo-se a pedra semi-preciosa do mesmo nome e a ela agregando uma resina ou adesivo. A outra face do que foi a parte cilindrica da empunhadura está lascada e nela falta cerca de 20% da madeira e todo o restante do "insert".
Na porção não-afiada do dorso da lâmina nota-se uma reentrância côncava, provavelmente para melhor apoio do polegar, ou do dedo indicador do usuário, isto talvez demonstrando a preocupação do artesão com um empunhar mais firme numa eventual tarefa utilitária. Ao apreciar-se essa faca, claramente se percebe que ela foi executada por um profissional muito experimentado na arte de confeccioná-las.

Vista superior da porção inicial da lâmina de bronze, onde se nota o encavado, provavelmente para apoio do dedo polegar.
Assim, de forma técnica, pode-se afirmar que a configuração dessa lâmina partiu de um modelo consagrado e que reunia as 3 mais desejadas funções das facas em todos os tempos, principalmente nos antigos, haja vista que naquelas épocas eram instrumentos notadamente caros, preciosos: servir como ferramenta utilitária e arma ofensiva e defensiva. Claramente percebe-se que essa faca egípcia foi em sua origem uma criação sofisticada, creio eu que mais dirigida ao ataque, principalmente pelos fatos de ela ter fio em grande parte do dorso e a ponta muito aguda, e não apenas ser um objeto utilitário.
Apenas para que se tenha uma idéia de quão cara podia ser uma faca egípcia de bronze em sua origem, é interessante notar que, naqueles tempos, uma simples talhadeira do mesmo metal valia mais do que todo o salário mensal de um trabalhador especializado.

Na ilustração que fiz para mostrar como essa rarissima faca seria quando nova, contei com a colaboração de sérios estudiosos e inspirei-me na empunhadura da adaga vista no famoso mural em alto relevo da rainha Hatshepsut (1503-1482 aC), da 18ª dinastia egípcia. No mural (de 36 cm de altura, encontrado no Templo de Deir el-Bahri, em frente a Karnak), a então já muito gorda rainha foi esculpida ao lado de seu esposo, o rei Pereh, também conhecido na literatura hieroglifica do Antigo Egito como "O Grande de Punto", este título referindo-se a uma bem-sucedida viagem comercial que o casal fez à exótica terra africana de Punto. No mural, o rei Pereh é mostrado recebendo oferendas. É conveniente registrar que apenas existe uma outra empunhadura de faca egípcia da Idade do Bronze conhecida, esta sendo do mesmo formato daquela do rei Pereh, mas executada em prata e com relevos que mostram cenas de uma caçada real.
A outra mencionada empunhadura de faca egípcia, em prata e com desenhos em relevo, que também inspirou o autor em sua ilustração. É datada como sendo do reinado de Nebkopeshre Apophis, da 15ª dinastia (1640-1532 aC).
Com esta faca egípcia em mãos é quase impossível não evocar cenas de faraós caçando, guerreando ou simplesmente passeando por entre pirâmides e templos. Ou talvez um simples soldado egípcio...


Ilustração mostrando como teria sido a rara faca egípcia de bronze quando nova e o detalhe do mural do rei Pereh agradecendo oferendas recebidas em Punto. Note a empunhadura da adaga em sua cintura. Atualmente, esse mural está exposto no Museu Egípcio, no Cairo.
N. do A.: 1) Agradecimentos especiais e muito sinceros aos egiptólogos brasileiros Drs. Alexander Sarwat e Manoel Cunha Horta e ao autor inglês John Baines ("Atlas of Ancient Egypt"), tanto pelas informações quanto pela cessão de algumas das fotos aqui mostradas; 2) na barra vertical que decora este texto os hieroglifos significam "Uma Faca Egípcia" e foram especialmente preparados para este artigo por John Baines.
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