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| A Força da Tradição... |
Um achado curioso na "terra do outro lado do mundo"
____________________________________Laerte E. Ottaiano e F.A.B. Coutinho
Nota de Laércio Gazinhato: Esta é a tradução, inclusive no título e sub-título, para o Português de um artigo publicado na edição em Inglês (nº 39, do inverno de 1989) da revista japonesa TOKEN BIJUTSU" ("O Jornal das Espadas de Arte Japonesas"), informativo oficial da Associação Para a Proteção das Espadas de Arte do Japão (NBTHK- NIHON BIJUTSU TOKEN HOZON KYOKAI), orgão especializado em espadas japonesas, subordinado ao Ministério da Cultura do Japão, da qual os autores foram associados.
O Dr. Coutinho era então Professor de Física da USP-Universidade de São Paulo (atualmente está no Departamento de Medicina da mesma universidade) e colecionador de espadas com grau superior de conhecimento das espadas japonesas.
Laerte E. Ottaiano, "expert" e "togishi" (polidor de lâminas e restauros completos em espadas japonesas), é autor do primeiro e único livro em Português sobre espadas japonesas, "Nippon-tô - A Espada Japonesa", publicado em 1987.
Este artigo trata de uma verdadeira raridade: uma "espada japonesa" que teria sido produzida no Brasil em 1946 por um ferreiro que havia imigrado para cá, e que vinha de uma grande e importante linhagem de "espadeiros" no Japão, a escola Enju. Essa espada foi apresentada pelo seu proprietário aos autores deste artigo durante a "Primeira Exposição de Espadas Japonesas" ocorrida em junho de 1987, nas instalações da Mobilinea em São Paulo (SP), organizada e realizada por Laerte E. Ottaiano, com o apoio do Consulado Geral do Japão em São Paulo.
O texto do artigo esclarece o assunto de forma sucinta e foi publicado na íntegra pela NBTHK por ter sido considerado de interesse e de importância para o mundo dos colecionadores e estudiosos das espadas japonesas, o que muito honra a todos nós brasileiros, por termos podido contribuir dessa forma.
Achei por bem passar-lhe estas informações iniciais pois encontram-se também aqui mencionados os nomes de dois mais importantes "espadeiros" de origem nipônica que trabalharam em São Paulo produzindo espadas ao modo japonês, destinadas ao treinamento de Kendo e Iai: os Srs. YOSHISUKE OURA, residente em Suzano (SP), e que tinha o nome artístico de "SUKEMUNE" e o Sr. KUNIO ODA , que viveu no bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo, que tinha o nome artístico de "KUNIHIRO", ambos já falecidos (Veja artigos sobre eles)

Capa da revista e páginas do artigo original em língua inglesa
Como é sabido, quando se examina uma espada japonesa a última coisa que é olhada é a assinatura do fabricante. Todos nós sabemos como é tentador passar por cima dos primeiros passos e, tendo encontrado uma assinatura, correr para olhar um livro de nomes e assinaturas para ver se o autor. ou melhor, a assinatura, consta da lista.
Não
foi isto o que nos aconteceu há alguns meses atrás. Fomos
contatados por um senhor de idade avançada que nos apresentou
uma espada, de sua propriedade, para ser examinada. Seguindo o
procedimento-padrão de "kantei" (análise de espada),
examinamos a forma da lâmina, sua estrutura, têmpera e
finalmente o "nakagô" (parte da lâmina que fica
inserida na empunhadura). Até aqui, haviamos chegado a poucas
conclusões: a partir da forma, a espada parecia uma
"KEITCHÔ SHINTÔ" (espada nova da Era Keitchô: c.
1600 ) mas o "yokote" (linha divisória da ponta)
estava obviamente mal colocado. Notava-se também uma curvatura
tipo "sakisori" (de ponta) um tanto exagerada. A
estrutura de superfície ("hada") era tipo
"ko-itamê", com uma cor esbranquiçada que lembrava um
pouco o tipo de "pele" das espadas de Kyushu. A
assinatura estava bem cinzelada com uma bela caligrafia (ver
oshigata 1) e se lia: KIKUCHI ENJU TATSUKUNI.
Contudo, este nome não constava em qualquer dos nossos
dicionários de nomes (e temos muitos!). Então, quem teria sido
este Kikuchi Tatsukuni?
O proprietário (que preferiu manter-se anônimo) esclareceu-nos a questão. A espada havia sido feita por um "espadeiro" japonês em 1946, quando ele já tinha 70 anos de idade. Sim, todos nós sabemos que a produção de espadas japonesas foi proibida durante os anos de ocupação norte-americana do pós-guerra, porém isso não havia impedido esse espadeiro de trabalhar. Vejam, ele havia emigrado para o Brasil 14 anos antes. A espada havia sido feita no Brasil!
De acordo com informações
fornecidas pelo proprietário da espada, o "espadeiro"
teria nascido no ano de 1876 (ano em que se proibiu o uso de
espadas no Japão, por édito imperial do Imperador Meiji) e
havia sido de uma muito tradicional família de
"espadeiros". Provavelmente, tentou ser um
"espadeiro" mas havia falhado.... O fato é que veio
para o Brasil como produtor de artefatos e implementos de ferro
para agricultura. Nos foi dito também que tais implementos
agricolas podiam ter formas estranhas e eram muito afiados. Nosso
informante não sou dizer o nome desses implementos em
português, e também tinha dúvidas de como seriam chamados em
japonês.... Naquele momento, não demos muita importância a
esses detalhes. De acordo com o proprietário, aquela espada
havia sido uma das poucas que o "espadeiro" fabricou,
sob encomenda (era sabido que como esta havia uma outra mais
curta, tipo "wakizachi" ,de tamanho médio que teria
ido para o norte do Paraná e da qual
não se tem mais nenhum traço)......................................................................................................Oshigata 1
O
"espadeiro" também fez a "tsuba" (guarda)
que está montada com a espada. Nessa "tsuba" está
gravado um poema e por esse poema está muito claro que ele nunca
havia acreditado, ou aceitado, o fato da derrota Japonesa na 2a.
Guerra Mundial (ver Oshigata 2)
O fato de que alguns "espadeiros" japoneses imigraram para o Brasil é por nós conhecido. De fato conhecemos dois deles, que tem atualmente mais de 70 anos de idade(Nota dos Autores: em 1989): o Sr. YOSHISUKE OURA (N. dos A.: falecido em 2000), cujo nome artístico é SUKEMUNE, e o Sr. KUNIO ODA (N.dos A.: falecido em 1992), cujo nome artístico é KUNIHIRO.
Uma das coisas que é diferente na espada que examinamos, em relação às espadas produzidas pelos dois senhores acima mencionados, é a forma ("sugata") da lâmina. Tanto o Sr. Oura quanto o Sr. Oda produziram espadas com a forma mais comumente encontrada nas espadas militares da 2a. Guerra Mundial, com forte curvatura e algum "funbari" perto da empunhadura e então continuam com os dois lados e dorso e corte quase paralelos (ambos declaravam procurar a forma das espadas de Bizen, com curvatura no primeiro terço).
Oshigata 2 (Para tradução do poema gravado na tsuba, veja final do artigo)
A outra diferença era na estrutura da superfície dessa espada : os reflexos esbranquiçados eram muito diferentes daquelas dos dois últimos "espadeiros".. Isto sugeria que os dois "espadeiros" citados poderiam ter sido treinados nas academias militares do Japão enquanto que o primeiro, sendo bem mais velho, pudesse ter sido treinado na sua própria família. Era entretanto um certo desapontamento não podermos situá-lo em nenhuma escola particular. Procuramos sob o nome Kikuchi e sob o nome Tatsukuni e, se bem que achassemos dois "espadeiros" modernos sob o nome de Kikuchi, não encontramos nenhum traço ou evidência que os ligasse a este "nosso" Kikuchi.
O proprietário da espada porém insistiu que o espadeiro afirmava pertencer a uma importante linhagem não só muito antiga mas também ligada a Massamune e Nobukuni.
Um ou talvez dois meses mais tarde, tivemos a oportunidade de ler um artigo da NBTHK na revista Token Bijutsu cujo título era "KIKUCHI YARI" (Lanças Kikuchi). Neste artigo vinha descrita uma linhagem de "espadeiros" famosos que produziram "Yaris" (lanças) e de fato conectados a Nobukuni. Essa linhagem é também descrita na enciclopédia "Nippon-Tô Koza", Vol. 1.
A partir desses artigos ficou claro que realmente havia existido uma linha de "espadeiros" de nome Kikuchi, com um ramo vivendo no vilarejo chamado ENJU. Agora sim, o que estava escrito como assinatura ficou claro e justificado. O "nosso" KIKUCHI tinha razão quanto à sua origem e isso explicava duas coisas: um "yokote" fora de lugar e uma acentuada curvatura de ponta ("sakisori"). De repente, o que havia sido suspeitado tornou-se claro: esta espada havia sido feita como um "NAGAMAKI" e não como "KATANÁ". Por isso o "yokotê" deve ter sido posto depois e fora de lugar. A forma dessa lâmina é muito parecida com uma versão alongada da ilustração de um "yari" (o do meio) da página 161 do Vol. 1 da enciclopédia "Nippon-tô Koza". A partir desse momento tornou-se claro que o "implemento agricola" era nada mais nada menos que um "Kama-Yari". Um outro livro que ilustra esse tipo de Yari é o "Japanese Polearms", de Knudsen.

Típica lãmina de "nagamaki", que também poderia se chamar "espada-lança". É uma forma pouco comum de espada japonesa do Período Nambokucho, especificamente entre 1400-1450. Esta é apenas similar aquela analisada pelos autores, a qual não tinha o sulco. "Nagamakis" foram muito usados no Japão feudal pelos famosos monges-guerreiros.
A comunidade nipo-brasileira está comemorando este ano (Nota dos Autores: em 1989) o seu 80º aniversário da imigração. Não sabemos exatamente quantos vieram, porém o número de ferreiros japoneses foi importante, não só se falarmos de "espadeiros". Isso aponta a importância da manufatura de espadas mesmo durante o período difícil desde 1876 até 1945.
Quando afirmamos que o Sr. Kikuchi tinha tentado ser um "espadeiro" e eventualmente falhara no seu intento estávamos errados e agora podemos até pensar que isto não é correto: "espadeiros" e produtores de "yaris" (lanças) perderam sua função após o "Hai-Tô-Rei" (lei da proibição de uso de espadas) e, no entanto, o Sr. Kikuchi conseguiu superar seus problemas transformando sua arte na produção de instrumentos agricolas, pacíficos e extremamente úteis. Ele veio trazendo consigo a intenção de ajudar seus compatriotas em um ambiente novo e desconhecido. Seus inimigos não eram mais outros homens mas sim a vegetação tropical... E ele venceu!
Observação: o poema gravado na "tsuba" da espada é um clássico japonês de autoria de Motoori Norinaga, do século 18, que se lê "SHIKISHIMA no YAMATO-GOKORO wo HITO to WABA ASAHI ni NIOU YAMAZAKURABANA", cuja tradução é: "se quisermos falar, em uma palavra, do sentimento japonês (podemos dizer) é o perfume matinal das flores de cerejeira da montanha", conforme citado no livro "Les Samourais" pág. 329, dos autores Jean Mabire e Yves Breheret, Editora Ballard, Paris- 1972.