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| Facas Mundial - Exemplares Raros |
Conhecendo a
história e algumas raridades da
mais famosa marca nacional de facas esportivas
_____________________________________________________Laércio Gazinhato
Em nosso país, as mais conhecidas, melhores e mais belas facas esportivas comerciais (bem como alguns canivetes) foram da marca Mundial, empresa hoje pertencente ao Grupo Eberle, nome também de antiga e grande tradição na área de cutelaria do Rio Grande do Sul.
Atualmente, junto com exemplares da igualmente famosa marca paulista Corneta, antigas facas esportivas e canivetes da marca Mundial começam a ser extremamente disputados por colecionadores brasileiros.
Este artigo mostrará alguns dos mais antigos e raros exemplares da famosa marca gaúcha, cuja história merece ser conhecida por todos os brasileiros que apreciam bons itens de Cutelaria. Vamos a ela!.
Em 1931, o alemão Paul Zivi chegou a Porto Alegre (RS) vindo da cidade alemã de Elberfeld, onde desde 1919 era sócio - juntamente com os irmãos Fritz e Ernest - da Cutelaria Gebruder (Irmãos) Zivi. Tinha consigo grandes planos e pretendia aqui iniciar um sério negócio nessa área e, para tanto, trouxe com ele 3 mestres-cuteleiros e ligou-se a sócios brasileiros de descendência germânica para o empreendimento. Em 17 de agosto daquele mesmo ano, foi fundada a empresa Zivi, Kluwe, Mueller & Cia Ltda. e para ela providenciada uma pequenina fábrica. Em 1933, Alfred Backhaus, preposto de Paul que havia ficado na Alemanha para liquidar a Gebruder Zivi, reuniu-se ao velho amigo, passando a colaborar ativamente no desenvolvimento da firma brasileira.

Vista parcial da primeira fábrica Mundial em Porto Alegre (RS), no início da década de 1930.
Já no ano seguinte, 1932, a empresa produzia diversos tipos de facas profissionais e algumas utilitárias (com a marca SESAM) e em 1935 iniciou a produção de suas (até hoje) famosas tesouras. O desenvolvimento continuou e em 1936 a empresa inaugurou uma fábrica destinada apenas a produção de talheres sob a marca Hércules, que foi a pioneira no uso de aço inoxidável, matéria-prima até então desconhecida no Brasil para esta aplicação. Isto se deu através de um contrato de fornecimento de aços com a famosa Krupp alemã.

Antiga faca esportiva da marca Sesam da década de 1940.
Em 1940, surgem as marcas Mundial e Mundial 4 Ases, esta última inicialmente destinadas a tesouras mais sofisticadas e alicates de manicure. No final de 1942, os sócios Kluwe e Mueller se afastam da empresa, a qual muda sua razão social para Zivi & Cia.

É exatamente em 1942 que surgem as primeiras facas esportivas da famosa marca, as quais permaneceriam em produção ininterrupta até 1982, quando a Empresa entendeu que deveria voltar sua vocação para produtos de maior giro, no sentido de obter volumes maiores de venda.
Durante 40 anos, a Mundial dominou completamente o mercado de facas esportivas comerciais e lançou mais de 25 modelos diferentes. Em 1976, a Empresa passou a utilizar aço inoxidável em suas facas esportivas e canivetes, no que também foi pioneira em nosso país.
No final da década de 1970, Paul Zivi voltou para a Europa, indo residir na Suíça, onde faleceu alguns anos depois.
RARIDADES
É especialmente importante notar que: 1) alguns modelos iniciais de facas esportivas da marca Mundial foram cópias na maioria dos casos de qualidade e acabamento superiores - de "designs" consagrados das norte-americanas Remington e Marbles (com o clássico uso combinado de talas de osso escalavrado e anéis de couro) e de outros de cutelarias alemãs (como Richard Herder, por exemplo) e 2) a trajetória tecnológica e de "design" da Empresa sempre acompanhou as principais tendênciais internacionais e melhorias desse segmento.
A seguir, vamos conhecer alguns marcos desse caminho de extrema qualidade, característica que sempre norteou os produtos da Empresa.
A Faca do Fundador
Alem do fato desta exclusiva faca de caça ter pertencido ao alemão Paul Zivi, (veja plaqueta de prata numa das talas de sua empunhadura, com a gravação "P.Zivi-1942"), principal fundador da Mundial, ela ainda é muitíssimo especial pelas seguintes razões:
a.
sua bainha traz o primeiro logotipo da
famosa marca comercial, quando a razão social da Empresa ainda
era Zivi, Kluwe, Mueller & Cia. Ltda., daí as letras ZKM.
Já em 1942, a razão social mudaria para Zivi
& Cia. e o logotipo perderia a representação estilizada da
águia alemã. A lâmina não tem qualquer timbre
do fabricante, provavelmente devido a ser um período de
transição ou a este ser um exemplar especial;
b. este exemplar tem
o dorso da lâmina inclinado para
cima, como o modelo Woodcraft da famosa marca
norte-americana Marbles do mesmo período, sendo este o
único exemplar da marca conhecido até o momento com essa
característica;
c. a empunhadura ainda é de osso bovino escalavrado imitando chifre e os espaçadores são de couro e fibra, como nos primeiríssimos exemplares da marca. Seu "espigão" é preso no pomo por uma cupilha de latão rosqueada, sistema criado pelas mencionadas marcas norte-americanas e usado pela Mundial até 1974.

Empunhadura de Chifre
Esta raríssima faca Mundial apresenta duas
particularidades consideradas únicas pelos
especialistas e colecionadores da marca: a) sua
empunhadura é uma só peça de chifre de veado
(provavelmente do nosso campeiro) e b) graciosa e longa guarda
dupla de latão e em "S".
A faca ainda tem seu "espigão" preso por cupilha de latão, e embora não existam vestígios da marca, pois sua lâmina de 6 polegadas está algo enegrecida pela idade, a velha bainha de couro (com desenho pirografado) não deixa dúvida quanto ao exemplar ter sido fabricada ainda na década de 1950, bem como o fato de seus espaçadores serem de fibra.
Até o presente momento não se conhece outra faca Mundial com a empunhadura em peça única de chifre de veado e guarda em latão.
Lâmina Gravada
Imitando alguns raros modelos de facas de caça Remington (RH-71, 72, 72P e 73, todos lançados em 1933) e algumas alemãs da década de 1950, esta rara faca Mundial apresenta numa das faces de sua lâmina de 6 ¼ polegadas, em aço inoxidável e assim timbrada, um painel gravado a ácido com cena campestre (3 gaúchos chegando em uma casa), terminando em direção à ponta com o desenho de uma "ikebana" (!?!). O autor apenas conhece uma outra dessas facas com lâmina gravada, esta de menor comprimento e mostrando cena de acampamento.
Além de também ter as talas da empunhadura em osso
escalavrado e o "espigão" preso por cupilha de latão,
sua bainha mostra painel pirografado, com a cena de um gaúcho no
campo tomando chimarrão.
A marca Mundial sem moldura ao redor e o termo "aço inoxidável" estão gravados a ácido no ricasso da lâmina, bem como da mesma forma na bainha, e em tipologia antiga, típica dos anos 50 e 60. Os espaçadores da empunhadura, combinando as cores laranja, azul e negro, grossos, são absolutamente únicos.
Tudo leva a crer que essas raras Mundiais com gravação a ácido foram manufaturadas de maneira experimental (provavelmente com alguma pequena partida de aço inoxidável importada para esse fim) apenas durante um curtíssimo período das mencionadas décadas, pois o fabricante oficialmente declara que apenas passou a utilizar esse mais moderno aço a partir de 1976.
O Início do Plástico
A partir de 1972, a
Mundial passou a usar material plástico na empunhadura de suas
facas esportivas. Isto ocorreu em todos os modelos e 2 anos
depois, em 1974, a empresa mudaria o sistema de fixação do
"espigão" de suas lâminas, passando de uma cupilha em
latão, inserida e rosqueada no pomo, para um pino passante de
alumínio.
Portanto, esta faca com lâmina de 6 ¼ polegadas em aço carbono só pode ter sido manufaturada entre 1972 e 1974. Além de apresentar empunhadura em plástico mas com "espigão" preso por cupilha, sua bainha é absolutamente incomum, mostrando traços de modernidade no prendedor (cujo tipo é raramente visto), mas ainda com painel pirografado.
O logotipo grande foi timbrado em facas esportivas da Mundial até 1975.
Modelo de Escoteiros
Provavelmente manufaturada entre 1974 e 1975, já
mostra o "espigão" preso no pomo por pino passante de
alumínio.
Especialistas da marca afirmam que, embora não-oficial, foi o modelo preferido dos escoteiros brasileiros da época. Por parte do fabricante nunca teve essa denominação ou apelo comercial.
Sua lâmina tem 5 polegadas de comprimento, é em aço carbono e ainda apresenta o logotipo grande da Mundial timbrado a ácido numa das faces da lâmina.
Posteriormente, no início dos anos 80, um modelo similar com lâmina 1/8" maior e em aço inoxidável foi lançado, certa e igualmente também cativando a atenção de grupos nacionais de escoteiros. Este tinha timbrado na lâmina um distico redondo informando que se tratava de aço inoxidável cromo-molibdênio.
Modelos "Sheriff" Iniciais
A "Sheriff Knife" foi o mais
famoso modelo de faca esportiva da Mundial. Seu
"design" é cópia de um modelo alemão de mesmo nome e
de uma variante denominada "Frontier Knife", com a
guarda mais trabalhada, ambos lançados pela Richard Herder nos
anos iniciais da
década de 1970 e que tiveram enorme sucesso na
Europa e EUA.
A "Sheriff
Knife" da Mundial foi comercializada a partir de 1978 e o modelo
de lançamento trazia letras de tipo gótico
(como nas originais alemãs)
na gravação do nome do modelo nas lâminas de
aço inoxidável de 6 polegadas de
comprimento. Após 1978 e durante um curtíssimo período foram
lançadas as primeirissimas "Sheriff
Knife" com lâmina 1/8" maior e bainha de
couro negro ou em tonalidade natural sem o
clássico logotipo dos 4 naipes, as quais foram, em realidade, exemplares
de pré-série comercializados apenas em
estabelecimentos selecionados, mais para verificar-se a
aceitação do mercado. Posteriormente, todas as demais
"Sheriff" teriam lâminas com o comprimento de 6
polegadas. A produção desse modelo encerrou-se por volta de
1981.
A empunhadura das "Sheriff Knife" da Mundial também foi cópia daquela encontrada no modelo alemão inspirador, ou seja, constituída de discos de plástico marrom, grossos, intercalados com outros mais finos de alumínio e espaçadores vermelhos nas extremidades.
Modelo "Pukko"
Afirmam os estudiosos da marca que este é o mais raro modelo de produção normal da Mundial.
A história que se tem aqui em
São Paulo é que em 1980 ou 81 (portanto 1 ou 2 anos antes de
encerrar a produção de facas esportivas), a Empresa recebeu uma
encomenda de um distribuidor da Finlândia para produzir 5.000
"pukkos" (que é faca de caça nacional daquele país)
modernos, num "design"
do próprio
distribuidor adaptado às potencialidades da Mundial.
Apreciando muito esse "design", a Mundial teria produzido 1.000 exemplares a mais e vendido-os no mercado nacional, onde tiveram relativo sucesso.
Estes "pukkos" da Mundial tem a lâmina em aço inoxidável, com 4 7/8 polegadas de comprimento, a empunhadura em peça única de Jacarandá-da-Bahia claro e bainha envolvente e costurada na lateral com fio de couro.
A atual direção da Empresa nada sabe informar a respeito das origens de seu modelo "pukko".
Exemplares de 2a. Qualidade
Existiram em 4 ou 5 modelos, entre eles alguns com empunhadura em peça única de plástico imitando chifre de cervo e alguns da linha "Onça" (que eram utilitárias do tipo integral, com empunhadura em talas de jacarandá-da-Bahia).
Por vezes, os
defeitos nesses exemplares são quase imperceptíveis: uma
pequenina mancha no aço, uma falha de polimento, ou de ajuste da
guarda ou dos espaçadores, etc. A honestidade da Mundial era
notável nesse caso, pois ela timbrava a lâmina com a marca ao
lado. Entretanto, foram pouquissimas as lojas que revenderam
esses exemplares de 2a. qualidade, os quais parecem
ter sido comercializados apenas no período de 1978 a 1981.
N. do A.: Agradecimentos especiais ao Dr. Michael L. Ceitlin, diretor-superintendente do Grupo Eberle-Mundial, por suas informações históricas e técnicas sobre a marca Mundial, aos senhores Hélio Barreiro Jr., Hélio Clemente, Flávio Duprat, Jonas Coutinho e Krishna Salinas Paz, estudiosos e colecionadores dessas facas.
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