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Oda: Uma Descoberta
Muito Diferente e Misteriosa...

 

Inusitada, incomum e rara em diversos aspectos.

 

_____________________________________________________Laércio Gazinhato

Uma recém-descoberta criação do famoso Kunio Oda (veja artigo "As Espadas de Oda") configura-se como ÚNICA e SURPREENDENTE por muitas características.

Já tendo visto e manuseado cerca de 50 (cinquenta) criações de Oda, posso afirmar que a espada que descobri recentemente aqui em São Paulo é TOTALMENTE DIFERENTE da linha tradicionalmente conhecida do famoso "espadeiro" e apresenta-se – no mínimo – como mais uma prova da capacidade eclética desse artesão japonês radicado no Brasil.

Por diversos detalhes construtivos e por seu polimento ainda relativamente rústico em áreas outras que não o "hamon", é certo que a manufatura desse "daitô" (espada longa) de Oda deu-se na fase inicial do "espadeiro", em algum momento do período de 1968 a 1971, que - por coincidência - foi quando ele batizou sua oficina da rua Conselheiro Furtado, no bairro paulistano da Liberdade, com o nome de "Ge-sho-an", ou Atelier da Paz da Lua.

É importante lembrar que Kunio Oda (1912-1992) foi por tradição familiar um forjador e que, assim como qualquer "espadeiro" japonês fora de sua terra natal, foi obrigado a aprender, ou desenvolver, técnicas do difícil polimento com pedras que caracteriza o acabamento das lâminas japonesas clássicas, bem como produzir as diversas partes que as complementam, tais como montagens (empunhadura + bainha), "tsubas" (ou guarda), "habakis", "menukis" e demais furnituras.

Os pontos absolutamente incomuns, inusitados e raros desta criação de Oda são:

a) montagem: do tipo "shira-saya" em jacarandá-da-bahia, tendo na face esquerda da parte de empunhadura uma pequenina plaqueta de latão, com diminutos motivos clássicos japoneses e proveniente do fecho de uma bolsa de fumo da Era Meiji (1868-1912). Curiosamente: 1) a empunhadura não é aquela típica desse tipo de montagem, ou seja, reta, com uma mesma espessura em toda a extensão; esta tem a parte central com maior espessura; 2) a bainha apresenta um pequenino bocal de latão, já com bastante pátina. Lâminas de Oda mesmo em tradicionais montagens "shira-shaya" de madeiras claras são raras;

b) lâmina: praticamente reta, como em alguns dos primeiros exemplares de "uchigatanás" (espadas de combate) do Período Momoyama (1574 - 1602), a maioria com lâminas reaproveitadas de antigos e compridos "tatchis". Esta tem "nagasa" de 64 cm. Apresenta 2 (dois) furos no "nakagô" ("espigão"), o que também foi extremamente incomum na linha do "espadeiro" (até o momento o autor só conhece uma outra espada de Oda com essa característica). Essa lâmina foi forjada na clássica técnica "maru-gitae" usada pelo artesão e entre a "shinogui" (linha medial) e o "munê (dorso), que é extremamente baixo, existem sulcos em ambas as faces, o da esquerda sendo menos longo do que o da direita. Espadas de Oda com sulcos na lâmina também são absolutamente incomuns. Curiosamente, na parte de baixo ("ji") da "shinogui", a "hada" (ou textura da superfície) não apresenta leves marcas de martelo, como seria o padrão conhecido de Oda, sendo absolutamente lisa. Em partes outras que não o "hamon" ainda notam-se pequeninas marcas das pedras de polimento dos estágios inicial e intermediário dessa operação;

Observações importantes: 1) existe uma lâmina antiga e original extremamente similar a esta, em montagem "shira-saya" e certificada pela NBTHK - Associação Japonesa Para a Preservação das Espadas de Arte, que foi produzida pelo "espadeiro" Soukan em 1860, quando tinha 42 anos. Soukan produziu lâminas desde os 17 anos de idade e trabalhou toda a sua vida exclusivamente para a família Furukawa, da província de Shimousa, a qual teve alguns membros que foram ninjas; 2) a única outra lâmina reta de Oda conhecida até o momento foi produzida para Tony Fujihara no final da década de 1980, na típica montagem "buke-zukuri" do artesão mas com "tsuba" quadrada (veja parte final do artigo "As Espadas de Oda").

c) "hamon": nesta lâmina é "konotare" (com pequenas e freqüentes ondas) aos invés de "gunomê" (sucessão de picos, alguns mais pronunciados), que foi o padrão do artista em todas as suas criações conhecidas até o momento;

d) marcas de lima: numa pequena porção inicial e depois intermediária do "nakagô" são do tipo "shinogui suji-chigai" (sulcos retos da linha medial para baixo e levemente inclinados acima dela), e, entre elas, do tipo "taka-no-ha" (sulcos no formato de "V"), completamente diferentes das que seriam o padrão do artesão (do tipo "sujikai", ou sulcos inclinados). Marcas de lima de tipos diferentes combinadas são completamente fora dos padrões clássicos e conhecidos em espadas japonesas;

e) assinatura: o artesão apenas assinava lâminas de criações muito especiais ou as executava a pedido, cobrando por esse trabalho. Esta é delicadamente executada a cinzel, numa boa caligrafia (produto de trabalho detalhado e aprimorado, que levaria entre 4 e 6 horas) e traz, de cima para baixo, os seguintes dizeres em "kandi": "Ge-sho-an" (nome do atelier, Paz da Lua); "Kunihiro" (nome artístico de Kunio Oda) e "Saku" (feita por); assim, "Feita por Kunihiro no Atelier da Paz da Lua". É provável que o "kataná" presenteado por Oda ao governador de São Paulo Laudo Natel na mesma época tivesse, no mínimo, assinatura similar.

f) "habaki": este é de latão e mais longo do que seria o comprimento padrão para "daitôs" (cerca de 80% da largura da base da lâmina). Tem comprimento igual a largura da base da lâmina, 34 mm. Os demais conhecidos do artesão são em cobre, no comprimento padrão;

 

Após estas constatações, vem a inevitável pergunta básica: porque TANTAS características diferentes em uma só criação, principalmente quando sabemos que no início de sua carreira de "espadeiro" Oda trabalhava quase que exclusivamente para membros da colônia japonesa de São Paulo, para os quais seria normal pedir uma espada em moldes tradicionais?

Conhecendo o trabalho de Kunio Oda e na tentativa de buscar uma resposta que pudesse solucionar o mistério que envolveu a criação dessa espada, sinto-me à vontade para formular algumas hipóteses:

1) teria sido A PRIMEIRA espada produzida por Kunio Oda, executada experimentalmente, quando o famoso "espadeiro" ainda NÃO havia decidido qual tipo de lâmina, montagem, "hada", "hamon", marca de lima ou "habaki" usaria como padrão para a absoluta maioria de suas futuras criações?

2) teria sido uma criação que Oda fez PARA SI PRÓPRIO e então justamente por isso individualizada e especial num grau extremo?

3) teria sido o pedido de um cliente com gosto MUITISSIMO DIFERENTE e MUITISSIMO DETALHADO que, por coincidência, ocorreu no início das atividades de "espadeiro" de Oda pois, conforme citei no final do artigo "As Espadas de Oda", ele foi um homem boníssimo, sempre disposto a atender os desejos de sua clientela?

Pessoalmente, NÃO acredito nesta última hipótese, pois creio - por mais detalhado e diferente que fosse o pedido de um cliente - ser extremamente improvável que um "espadeiro" japonês mudasse o tipo de "hamon" e de marcas de lima caso os adotados por ele já estivessem definidos ou estabelecidos, haja vista que estas duas características, isoladas ou conjuntamente com a "hada", seriam como uma espécie de "personalidade" de suas lâminas.

O filho mais velho de Oda, que foi seu ajudante durante muitos anos, certamente poderia elucidar as razões para a criação dessa espada absolutamente incomum, mas ele mudou-se para o Japão alguns anos após a morte do pai.

Assim, por enquanto, apenas fica-me uma indiscutível constatação: esta é A MAIS DIFERENTE criação do famoso Kunio Oda que já vi! Até hoje...

ADENDO IMPORTANTE EM 21/05/03

Recentemente tive a rara oportunidade de analisar em detalhes uma outra lâmina INICIAL de Kunio Oda. Trata-se de "kataná" em montagem "handatchi", segundo o proprietário encomendado por seu pai ANTES de 1970. Apresenta O MESMO "hamon", "habaki" de latão e, no "nakagô", marcas de lima similares e A MESMA assinatura da lâmina descrita acima. Foi montada aproveitando partes de um antigo "handatchi", quais sejam "tsuba" (em ferro, com mínimas lavrações em "sentoku"), "menukis" (com a detalhada figura de uma lagosta, em cobre e prata), ponteira e reforço intermediário da bainha original, que foi pintada de bordô vivo. A empunhadura apresenta o clássico "samê" e cordame negro usados por Oda. A "kashira", longa e claramente executada por Oda, é lisa e em ferro oxidado de marrom, seguindo o clássico padrão daquelas encontradas nas empunhaduras de "handatchi", prova inconteste da fidelidade que Oda mantinha ao estilo original de uma montagem quando re-aproveitava partes. VER ESSA OUTRA CRIAÇÃO DE ODA DEU-ME A CERTEZA DE QUE, BEM NO INÍCIO DE SUAS ATIVIDADES, OS PADRÕES DE "HAMON" E DE MARCAS DE LIMA DO FAMOSO "ESPADEIRO" ERAM MESMO OS DESCRITOS NO ARTIGO ACIMA.


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