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Arte em "Tsubas"

 

(Seja paciente: são mais de 50 fotos.)

 

Lindos exemplos da clássica decoração japonesa de metais

_____________________________________________________Laércio Gazinhato

 

"Tsuba" é a pronúncia do têrmo japonês que define a guarda das lâminas dessa origem. A "tsuba" é parte integrante das espadas e dos "tantôs", embora neste último tipo possa existir uma variante de montagem ("koshirae") sem essa parte, denominado "aikuchi".

Enquanto espadas japonesas são um forte ícone da cultura e da tradição guerreira do Japão, no mundo moderno as "tsubas" tornaram-se, isoladamente, um disputado símbolo das mais antigas técnicas artísticas executadas em metal, sendo -por si só - obras de arte de tempos que não voltam mais.

Basicamente, as "tsubas" podem ser divididas em 2 (dois) tipos: as vazadas ("sukachi"), ou com porções recortadas no metal, e as sólidas ("kinkô"). As "tsubas" vazadas gozaram de popularidade durante centenas de anos, porém começaram a sair de moda em meados do século 18, quando o luxo suplantou a função.

No início da efetiva produção de lâminas tipicamente japonesas (por volta do ano 900), as "tsubas" eram produzidas pelos próprios forjadores e por fabricantes de armaduras, e – em sua maioria – eram de ferro, simples, toscas, quando muito com porções vazadas (inicialmente com a finalidade de nelas passar um cordame, de tecido ou couro, para que a empunhadura não escapasse da mão em situações de combate). Esses elementos vazados das primeiras "tsubas" são hoje também encarados como uma forma primitiva de decoração e, de maneira geral, foram uma constante durante o final do Período Heian (794-1192). Posteriormente, os elementos vazados das "tsubas" serviriam também para a passagem de "kozukas" (pequenas facas utilitárias) e "kogais" (finos estiletes sem fio) que se inseriam em compartimentos próprios na bainha, esses orificios passando a ter, na maioria dos casos, formas padronizadas.

No final do período seguinte, o Kamakura (1192-1336), surgem as primeiras "tsubas" de ferro mais elaboradas, mais decorativas, normalmente com desenhos e inscrições em alto e baixo relevos, e umas poucas já combinando, embora de forma ainda tímida, alguns metais moles em sua manufatura.

"Tsubas" em ferro do Período Muromachi. Da esq. p/ a dir.: inicio do período, 8,5 X 9 cm;
metade do período, 8,2 X 8,5 cm; final do período, diâmetro de 7,8 cm.

No fim do Período Muromachi (1392-1572) surge a família Shoami, de Kioto, a qual se especializa na produção de "tsubas" de ferro com detalhes em metais nobres e que daria origem a diversas escolas seguindo essa técnica. Assim, nas décadas seguintes essas escolas se consagram e, além do ferro, torna-se comum o uso de ligas metálicas, como o bronze e o latão, mas em especial duas: uma, de cobre com partes mínimas de ouro denominada "shakudô" e outra denominada "sentoku", de típica coloração amarela e originada pela combinação de cobre, zinco e estanho.

Nas "tsubas" e furnituras executadas com "shakudô" se utilizava muito a técnica do fundo micro-punçonado ("nanakô"), sobre o qual era aplicada uma pátina que o tornava escuro e fosco, quase negro, esse fundo artístico servindo de veículo para que desenhos ou relevos, altos e baixos, em ouro, prata, cobre e/ou em "sentoku" imediatamente se destacassem. Também foi relativamente comum a combinação de "shakudô" e "nanakô" para tampar-se os orificios laterais das "tsubas" destinados à "kozuka" e ao "kogai".

Os produtores de montagens (bainhas, empunhaduras e suas furnituras) para as lâminas japonesas do final desse período e do seguinte começam a se preocupar mais com a estética das partes metálicas e desenvolvem maior senso artístico quanto a um mesmo estilo, uma mesma linha ou "personalidade", nas diversas partes que as compunham. Assim, as principais apresentações ou temas dos elementos metálicos dessas montagens são seguidos nos demais, surgindo o que hoje os especialistas chamam de "en suite", ou "em combinação". Dentro dessa filosofia, muito praticada pela família Gotô desde o final do século 16 (e que posteriormente se tornaria uma escola e diversas sub-escolas com esse nome), a "tsuba", por ser o elemento mais imediatamente visível, torna-se o "carro-chefe" de todo um senso artístico particular às montagens de lâminas japonesas.

Típica "tsuba" inicial da Escola Shoami, diâmetro de 8,4 cm.
Note a timidez no uso de elementos decorativos em outros metais.

No último terço do Período Edo (1603-1868), com o movimento "fukkotô" (literalmente, "espadas feitas ao modelo antigo", considerado o último grande passo na manufatura das clássicas espadas de arte) surge uma nova época áurea das lâminas japonesas e suas montagens, onde elas – como um todo – tornam-se refinadas obras de arte. É também por volta dessa época que a decoração nas "tsubas" passa a ser entendida como uma espécie de arte isolada e, assim, a atividade específica daqueles que as produziam (e também outros elementos decorativos das montagens de lâminas japonesas) torna-se plenamente estabelecida, surgindo uma infinidade de formas e motivos de grande valor artístico, inspirados na apreciação da Natureza, em pinturas, contos populares, animais mitológicos, eventos históricos, heráldica familiar, etc.

 

 

Desde o Japão feudal era costume samurais e comerciantes ricos possuirem diversas "tsubas" para uma mesma lâmina. A partir de 1750 e até o final do Período Edo, a venda de "tsubas" – artísticas ou não – foi um comércio florescente nas grandes cidades japonesas.

 

 

 

A atividade dos produtores de "tsubas" terminou conjuntamente com a dos forjadores de lâminas quando, no ano de 1876, foi proibido o porte de espadas em público e sua demanda diminuiu tremendamente. Os artistas que produziam "tsubas" foram então gradualmente sendo absorvidos pelas oficinas de produção de outros objetos decorativos em metal.

Postas estas necessárias considerações iniciais, siga-me numa viagem fascinante pelo mundo das "tsubas" artísticas, cheias de elementos da cultura japonesa e atualmente muito valorizadas não só pelos apreciadores de Cutelaria Fina em todo o mundo.

Ondas do Mar
7,2 X 7,8 cm; final do Período Kamakura; ondas do mar; ferro forjado com lavração em alto relevo e aplicações mínimas de ouro.

Montanhas
7,2 X 7,6 cm; final do Período Muromachi; montanhas estilizadas; ferro forjado com grossas e fundas lavrações em baixo relevo e aplicações mínimas de "sentoku".

Cena de Vilarejo
6,6 X 7,5 cm; início do Período Edo; pessoas cruzando ponte; ferro forjado com aplicações de ouro. Note: 1) orifícios laterais com fina moldura de prata; 2) no anverso, o riacho continua.

Bambú
7,5 X 8 cm; inicio do Período Edo; bambú ao natural, cobre com aplicações de prata.

Madona
8,8 X 9,5 cm; início do Período Edo; raríssima e absolutamente incomum representação de Nossa Senhora com o Menino Jesus; ferro forjado com aplicações de ouro. Note ainda a clássica figura do "shishi", o leão protetor do Japão.

Libélula
5,8 X 6,6 cm; início do Período Edo; libélula em vôo; ferro forjado com aplicações de cobre, ouro e prata. "Tsuba" média, própria para "wakisashi".

Tartarugas
5,5 X 6,1 cm; início do Período Edo; representação de "kappas", tartarugas sagradas; "shakudô" com "nanakô" e aplicações de cobre, ouro e prata. "Tsuba" média, própria para "wakisashi".

Dragão - I
7,5 X 7,6 cm; metade do Período Edo; árvore e dragão ; ferro forjado com aplicações de ouro. Note: 1) orifícios laterais preenchidos com "shakudô"; 2) no anverso a cena continua.

Pássaro
6,6 X 7 cm; metade do Período Edo; pássaro com folhagem; latão com aplicações de "shakudô", ouro e cobre. Note que um dos orifícios laterais está preenchido com "shakudô".

 

Dragão - II
7,5 X 7,9 cm; metade do Período Edo; dragão estilizado; ferro forjado com aplicações de ouro.

Paisagem
8,3 X 8,5 cm; metade do Período Edo; paisagem com cabana japonesa e barqueiro no rio; ferro forjado com aplicações de ouro. Atribuída ao grande mestre Jyakushi.

Flores & "Shishi" - I
7,2 X 7,8 cm; metade do Período Edo; flores, folhas e "shishi", o leão protetor do Japão; ferro forjado com altos relevos de ouro e prata.

Dragão - III
7,6 X 8,1 cm; metade do Período Edo; dragão e motivos marinhos; ferro forjado com aplicações de ouro e cobre. Clássica e linda forma "mokko". Assinada pelo grande mestre Jyakushi.

Insetos & Flores
7 X 7,6 cm; final do Período Edo; insetos entre flores; "shakudô" com "nanakô" e aplicações de ouro e prata. Uma pequenina obra de arte da Escola Mino-Gotô e ainda na clássica forma "mokko".

Guerreiros - I
7,3 X 7,8 cm; final do Período Edo; samurais combatendo; ferro forjado com aplicações de "shakudô", cobre e ouro. Conservadora na forma mas inovadora no motivo e na construção. Novamente, note como a cena continua no anverso.

Folhas & Flores
7,4 X 7,9 cm; final do Período Edo; flores, folhas e heráldica familiar; "shakudô" lavrado em baixo relevo. Borda grossa em ouro, também lavrada, extremamente incomum.

Flores & "Shishi" - II
7,2 X 8,6 cm; final do Período Edo; flores, folhas e novamente "shishi", o leão protetor do Japão; "shakudô" com "nanakô". Alto relevo de ouro e prata sobre porções de cobre lavrado em baixo relevo; borda dourada. Clássica forma "mokko" em sofisticada e detalhada criação da Escola de Yokohama.

Plantas & Cavalo
6,3 X 6,7 cm; final do Período Edo; plantas aquáticas e cavalo; bronze com áreas negras em "shakudô" e alguns detalhes em ouro e prata. Típica "tsuba" média, própria para "wakisashi", assinada pelo mestre Toshikage.

Gansos & Plantas
Diâmetro de 7,6 cm; final do Período Edo; gansos e plantas aquáticas; bronze com áreas negras em "shakudô" e detalhes em ouro e prata. Anverso com mesmo motivo. Típica "tsuba" da Escola Kyo-Shoami.

Guerreiros - II
Diâmetro de 8,4 cm; final do Período Edo; samurais preparando-se para combate; ferro forjado com aplicações de ouro e prata; rara borda com inscrições a ouro. Note: 1) o anverso é exatamente as costas da cena; 2) orifícios laterais preenchidos com "shakudô". Trabalho da Escola Soten.


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